Introdução à Orquestração

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Olá Amigos!

Sei que estou devendo posts mais frequentes e comentários sobre vários assuntos importantes, mas meu tempo tem sido bem escasso. Vou tentar manter a média de 1 post grande por semana até essa onda passar. Espero que me perdoem. =)

Bom, vamos dar início hoje a um novo tema no blog, Orquestração.

Mais que uma técnica, orquestração pode ser chamada de arte. É uma das 4 especialidades que um bom compositor deve ter, e como disse Rimsky Korsakov no prefácio de seu tratado sobre orquestração:

Assim como um tratado de harmonia, contraponto, ou forma mostra ao estudante matérias harmônicas ou polifônicas, arranjo formal, e métodos técnicos sonoros, mas nunca vai dar-lhe o talento para composição, então um tratado de orquestração pode demonstrar como produzir um acorde de certa qualidade de tom que soe bem, distribuído uniformemente, como destacar uma melodia de seu conjunto harmônico, progressão correta das partes, e resolver todos estes problemas, mas nunca vai estar apto a ensinar a arte da orquestração poética. Orquestrar é criar, e isto é algo que não pode ser ensinado.

(…)

O poder da orquestração sutil é um segredo impossível de transmitir, e o compositor que possuir tal segredo deve dar-lhe um alto valor, e nunca rebaixá-lo ao nível de um mero conjunto de fórmulas decoradas“.

É exatamente isto que penso. Orquestrar não é um conjunto de regras, mas assim como todas as formas do fazer musical, é parte duma espressão, duma estética, dum sentimento. Orquestrar é intimamente ligado ao processo de composição, tão importante quanto as questões melódicas, rítmicas, harmônicas… deixar a orquestração um passo abaixo dessas outras questões é um erro gravíssimo.

Aleksandr Glazunov, grande compositor e orquestrador russo, dividia a excelência em orquestração em três níveis:

1. Quando a orquestra soa bem, lendo à primeira vista; magnífica, depois de alguns ensaios;
2. Quando os efeitos não aparecem senão com um grande carinho e atenção da parte do regente e dos músicos;
3. Quando a orquestra nunca soa bem.

Evidentemente, a principal meta é obter o nível 1, sempre. É óbvio que dificilmente alguém irá produzir obras-primas todos os dias, mas uma obra-prima só aparece depois de muita prática (e boas idéias, também). Praticar isto todos os dias (ou várias vezes pela semana) é um ótimo meio de se obter esta experiência, esta fluência em vários instrumentos, essencial para desenvolver este “senso poético” que Rimsky-Korsakov dizia.

“Mas Korsakov dizia que não são conjuntos de regras/fórmulas que formam um bom orquestrador, certo? Então por que existem tantos tratados e tantas regras sobre orquestração?” Muitos devem estar se perguntando agora. De fato, existe muito disto mesmo. Só que, como música nunca vai ser uma constante, uma ciência exata, há regras didáticas (feitas para ensinar algum aspecto e restrigir o foco nele), há regras estilísticas (estilos diferentes, estéticas diferentes) e regras gerais. Nas mãos de um compositor habilidoso todas as regras podem ser quebradas, dobradas ou expandidas…para isso basta apenas imaginação e bom senso. E prática.

Eu gosto de imaginar a orquestração em paralelo com a pintura: se a música fosse um quadro, as cores viriam da orquestração. Este paralelo é tão comum que vários compositores e musicólogos falam termos como “cor do timbre”, “cor da música”, “cores da orquestra”…existe até a técnica klangfarbenmelodie (melodia de cores do som ou melodia de timbres), criada por Schönberg. Recente, numa aula que tive com Eduardo Camenietzki, tive uma visão ampliada sobre este conceito.

Ele falou que gosta de pensar na orquestração na teoria que Wassily Kandinsky cunhou, de ponto, linha e plano. Tudo pode ser reduzido a estes três elementos e a misturas entre eles. Eis as definições:

  • Ponto: menor espaço a ser ocupado;
  • Linha: conjunto de pontos caminhando a uma direção;
  • Plano: conjunto de linhas.

Adaptando à música:

  • Ponto: uma única nota curta;
  • Linha: um som contínuo;
  • Plano: vários sons contínuos.

Com isto em mente, dá pra “subverter” todos os itens (harmonia, contraponto, melodia etc) da música a estes conceitos, trabalhando até de forma mais livre (dobrando e quebrando regras).

Outro conceito importantíssimo para orquestrar é a organologia, ou seja, a classificação dos instrumentos. Um sistema que gosto muito de usar é o Hornbostel-Sachs, que se propõe a classificação com base no elemento produtor do som. São 5 principais classificações (e todas tem suas subdivisões):

  1. Idiofones – o som é produzido primariamente pelo corpo ou alguma das partes do instrumento, pela própria elasticidade do material, sem necessidade de tensão adicional, nem cordas, membranas ou colunas de ar. Ex: xilofone, pratos, castanholas etc;
  2. Membranofones – o som é produzido pela vibração de uma membrana estendida e tensionada. Ex: tímpanos, bongô, caixa clara etc;
  3. Cordofones – o som é produzido pela vibração de uma ou mais cordas tensionadas. Ex: violino, piano, harpa etc;
  4. Aerofones – o som é produzido pela vibração do ar ou pela sua passagem através de arestas ou palhetas. Ex: flauta, oboé, órgão de tubos etc;
  5. Eletrofones – o som é produzido por meios eletroeletrônicos. Ex: sintetizadores, theremim, ondas martenot etc;

Prum orquestrador, estes dois conceitos (ponto-linha-plano e organologia) são chaves para um bom caminho. Deve-se pensar na orquestra ou no grupo de instrumentos a serem usados como uma palheta de aquarela, e cada instrumento como uma cor daquela palheta. Como cores, não existem as de qualidade ruim. A organologia entra na parte onde você pensa as cores de cada família, efeitos de som e na construção até de novos timbres e instrumentos.

Além disso, é importante que o orquestrador ouça muita música pra conjuntos (seja de câmara ou orquestrais), ele tem que estar em contato com estas linguagens. E estudar as partituras, sempre que possível.

Há vários livros com ótimo conteúdo sobre este tema, vou indicar alguns (todos em inglês, procurem em inglês):

  • Rimsky-Korsakov (obviamente) – Princípios de Orquestração* (o pessoal da Garritan Interaticve fez uma edição online dele comentada por vários compositores aqui)
  • Cecil Forsyth – Orquestração*
  • Cecil Forsyth – Orquestração de Coral*
  • Walter Piston – Orquestração
  • Samuel Adler – O Estudo da Orquestração (o melhor livro, mais completo e atualizado)
  • H.Berlioz e R.Strauss – Tratado em Orquestração*
  • Charles-Marie Widor – A Técnica da Orquestra Moderna*
  • A.Blatter – Instrumentação e Orquestração
  • A.Stiller – Manual de Instrumentação

Todos os livros marcados com um * podem ser encontrados legalmente de graça. Todos têm no IMSLP, por sinal. Se for pra ler só um, o Adler é o escolhido, mas é importante a leitura de vários sobre o tema pois cada autor introduz sua visão, cada um tem detalhes diferentes sendo explorados.

Então, é isto galera. No próximo post de orquestração vamos começar a brincadeira, de fato.

Até a próxima!
R.F.

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~ por arssonis em ter, 29/05/2012.

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