Percepção, para compositores

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Olá amigos! Como prometido, vou abordar hoje um assunto que atualmente muitos passam batido: PERCEPÇÃO.

Antes de tudo, vamos aos Google procurar uma definição para “percepção musical”:

A percepção musical é a capacidade de perceber as ondas sonoras como parte de uma linguagem musical. Envolve especialmente a identificação dos atributos físicos do som, como volume, timbre e afinação (percepção sonora), mas também elementos musicais como melodia (percepção melódica) e ritmo (percepção rítmica).

Bom, já temos um objetivo a atingir: “perceber as ondas sonoras como parte de uma linguagem musical”. Agora falta descobrir um caminho. Mas por que a percepção é importante, sobretudo para o compositor?

Mais que o intérprete, o compositor trabalha com idéias sonoras que surgem em sua cabeça. Espera-se dele capacidade de expressar tais idéias musicalmente (para performance e/ou registro fonográfico) e em forma de alguma notação escrita, principalmente para não perder as idéias. Também, depois, para registro desta música em órgãos de direitos autorais e para que outros músicos a interpretem (imaginem um compositor duma sinfonia tendo que tocar todos os instrumentos da orquestra!!!).

Então, ele deve desenvolver este domínio sobre a linguagem musical e mais importante, sobre a capacidade auditiva para poder expressar corretamente tais idéias. A linguagem aprendemos estudando teoria musical, é a parte relativamente simples do processo. O ouvido desenvolvemos com solfejo e didato. Um compositor profissional deve ter a capacidade (e a memória) de ouvir várias linhas melódicas (exemplos: um coral de Bach, um quarteto de cordas, um quinteto de sopros etc) e escrevê-las num papel depois; ele deve ter esta habilidade bem desenvolvida porque o tempo para entrega dos trabalhos é curto. E ficar numa de “tentativa e erro” do que se ouve/imagina consome muito tempo útil – quando uma idéia for escrita, deve-se ter certeza dela. As mudanças que poderão acontecer mais tarde serão frutos de necessidades específicas – nunca por erro de percepção.

O problema é que existem hoje em dia muitos músicos surdos, isto é, que não ouvem quem está em volta tocando também, muitas vezes não ouvem a si mesmos. Geralmente, são pessoas que se focam em técnica e teoria, e esquecem de que a música é o som, não as bolinhas pretas num papel pautado. O que realmente importa é o efeito sonoro, não a escrita dele. E muitas vezes, a percepção é deixada de lado por estes músicos.

“Mas, como estudar percepção? Ainda mais se eu não tenho quem me faça ditados?” Fácil, vamos recorrer aos softwares! Pelo menos, num primeiro momento, vão ajudar muito.

Eu uso para treinar em casa o EAROPE (figura 1) e o Auralia (figura 2). Existem alguns outros também, como o EarTuner. Mas estes dois atendem completamente minhas necessidades. Ambos trabalham com reconhecimento de intervalos, escalas, acordes e suas qualidades (maior, menor, aumentado etc), progressões e cadências harmônicas, ritmos… o Auralia ainda tem uma seção dedicada ao treino de contraponto, de ouvido absoluto, de modulações etc. Ambos trabalham com sistema de lições e níveis progressivos de aprendizado, e são bem intuitivos de se usar. Recomendo muito o uso de ambos.

EAROPE
Figura 1 – Tela de abertura EAROPE

Auralia
Figura 2 – Tela de abertura Auralia

Também deve-se treinar ditado ao ouvir uma melodia qualquer (seja no rádio, mp3 player, pela janela de casa…) e escrevê-la.

Já, para solfejo, existem vários livros com partituras para serem solfejadas: Bona, Pozzoli, Adler etc. Cada um procure um de sua preferência e estude por ele, são todos progressivos também. Sobre o solfejo em si, só gostaria de falar de um livro em especial, livro este que acho fundamental para todo músico. “Rítmica” de José Eduardo Gramani. Transcrevo um pedaço da introdução:

O ritmo em nosso ensino tradicional é considerado um elemento eminentemente matemático; se conseguirmos somar 2 + 2 saberemos executar um ritmo. Esta idéia, além de representar uma realidade parcial do fenômeno rítmico, colabora para que o mesmo se distancie muito do discurso musical, ocupando um lugar de pouca importância no estudo da música.

O objetivo deste trabalho é tentar trazer o ritmo musical mais próximo de sua realização total, tentar colocar o ritmo realmente como um elemento MUSICAL e não somente aritmético.

(…)

Os exercícios anexos foram compostos tendo como preocupação básica trazer à tona a face musical do ritmo. Estes exercícios não são um fim e sim um MEIO através do qual muito pode se desenvolver, principalmente os aspectos de disciplina interior e flexibilidade de adaptação da atenção a novos tipos de associações ou relações. Quando o exercício já estiver sendo bem realizado já deixou de ter sua função, pois os problemas que dificultavam sua realização já foram solucionados através de processos interiores de associação e dissociação. O desenvolvimento destes processos é que é o FIM.

(…)

Gramani desenvolveu este método quando percebeu que os músicos estavam deixando o ritmo de lado, como se ele fosse um elemento puramente estático e matemático. Como diz na contra capa: “Ler um ritmo apenas considerando seu aspecto aritmético, pensando unicamente nas subdivisões, nas pulsações, equivaleria a decodificar as letras de um vocábulo, uma a uma, sem dar conta de que termo é este, qual o seu nexo e, menos ainda, qual a sua importância no contexto em que está inserido. Infelizmente, o estudo acentuadamente técnico que se faz da música, sobretudo da erudita, nos deixa, na prática, à míngua de trabalhos no campo do ritmo que o focalizem não apenas em seu aspecto métrico.”

Realmente recomendo a compra deste livro porque seus exercícios são fantásticos, e muito divertidos de fazer. Exemplo de um exercício:  Neste exemplo, pág. 36 do livro, você deve bater a linha de cima com a mão direita e a de baixo com a esquerda. Depois inverte.

Agora, pra finalizar o post, quando e como estudar?

O ideal é estudar isso todo dia, pelo menos uns 20, 30 minutos. Convenhamos que os exercícios do Gramani nem os dos softwares  e de outros livros de solfejo são tão longos assim né… dá perfeitamente para estudar um pouco de cada coisa todo dia, sem falta. Legal também é fazer uma esquematização do estudo, dizendo os horários e o que vai estudar. Fica mais fácil de controlar o estudo e estabelecer metas depois.

Lembre-se que quando mais você se dedicar à percepção, melhor vai entender o que ouve e, consequentemente, vai escrever com mais precisão.

Pro próximo post, vamos meter a mão na massa já. Vou falar sobre dois livros: Arnold Schönberg – Fundamentals of Musical Composition e Roy Bennett – Forma e Estrutura na Música, e já vou mostrar exercícios deles. E as soluções que compus.

Bons estudos! ;P

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~ por arssonis em seg, 17/10/2011.

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